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Archive for the ‘Prosa’ Category

Um conto

Por um tempo além deste blog, eu mantive um de histórias sobre vampiros. Encontrei por lá um texto que foi bem elogiado. Então resolvi colocar por aqui, resolvi também reeditá-lo, acrescentar umas poucas palavras só para enriquecer um pouco mais a descrição. Na primeira versão intencionalmente eu pulei uma pequena linha do tempo pelo simples motivo de falta de criativadade, muita falta de vergonha de minha parte. O texto me agrada também e espero que agrade aos leitores. Lembro que não é meu forte, já não escrevo bons poemas simples, o que se pode dizer de narrativas?

Durante o século XVIII, uma família simples, uma família cristã, uma família bondosa, morava na Rua do Alecrim em Lisboa. Uma mulher de pouco mais de 50 anos, um homem com seus quase 70. Três adoráveis crianças, dois garotos, de 8 e 12 anos, uma bela mulher, com seus 20 anos. Os outros não nos interessam, mas a menina, que aliás já é mulher, e muito bela, ela é nossa estrela principal, nesse cenário de terror, um pequeno anjo. Fora educada nesses velhos costumes cristãos, era bondosa e meiga, muito gentil e também educada. Era como se viesse da nobreza, mas não. Era uma família simples, não pobre, afinal o pai tinha lá suas posses, mas ainda assim simples. Como sempre, era noite, não existe hora melhor. E nossa personagem principal estava sozinha, em uma rua deserta [como desertas são todas as ruas do medo], precisou sair da Missa do Galo mais cedo que os outros, teve que ir para casa. Mas aquela noite em especial, ela encontraria uma criatura que só existia em lendas. Um ser criado dos mais violentos mitos, dos piores sonhos. Descendente de Caim, um ser sombrio. A garota caminhava lentamente, com o olhar distante, melancólico, como a esperar, como se soubesse do seu destino, desse futuro imediato. Não houve cortejos como nos livros, galanteios, ou paciência da criatura, de forma violenta, rápida, cruel, cravejou no pescoço da donzela dentes brancos como marfim. Possuía, saboreava, degustava cada preciosa gota vermelha. E apaixonado pela doce humana que devorava, a criatura, se fez criador, a donzela se fez criação, e depois do banquete, fez do corpo imóvel e seco a sua frente, fez do corpo morto, sua amada imortal. O sol já estava nascendo, a família ainda estava acordada a procurar pela jovem, lampiões ainda estavam acesos a procurá-la. Enquanto ela estava acordando e não se lembrava muito da noite anterior, mas sabia que estava em um lugar estranho, iluminada por uma infeliz chama, sozinha no profundo escuro. Quando a criatura aproximou-se da jovem, ela gritou horrorizada. Levou horas para entender o que estava acontecendo. Levou dias para aceitar quem era agora. Levou décadas para se alimentar, e agora, alguns séculos depois, já consegue se divertir com tudo isso. Gosta dos apelidos que recebe, em especial quando a chamam de assassina. A falta de um coração batendo em peito quente é capaz de corromper a mais pura das almas, até mesmo essa doce garota, que ainda é bela, apesar de sua pele branca, parecendo uma pequena boneca de porcelana, que pode se quebrar a qualquer momento, mas não se engane, pode ser tão cruel quanto seu criador, ou qualquer outro antigo demônio dessa desprezível espécie. Todos desejam seu nome, não direi, é uma blasfêmia, uma maldição, o que sei é que após um massacre em uma pequena vila italiana, passaram a chamar a nossa bela dos olhos verdes de Ravena, uma pequena homenagem a esse delicioso massacre e é melhor que a chamem assim.

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O Poeta

Ia subindo a escadaria, ainda chovia muito. Mas ele não se importava com a chuva. Algumas dezenas de pessoas desciam e subiam junto com ele, ele também não se importava com essas pessoas. Era uma escadaria larga, cinza como toda a cidade. Para baixo uma rua estreita, com casas que quase davam as mãos, não era uma rua, era até menor. Para cima, bem ele nunca tinha ido lá em cima, e hoje gostaria de saber o que tinha lá. Por dias ele passava em frente , e via o mistério, gostava desse mistério, nunca perguntou a ninguém o que havia lá em cima. A dois dias atrás começara a escrever um poema, “A Escadaria” era o seu título, um poema de poucas linhas, que falava desse mistério, e de tantas pessoas que subiam e desciam-na todos os dias, mas ele nunca, nem subia e nem descia. Nunca se incomodou, e nunca teve vontade alguma ou nenhuma vontade de subir. Mas o poema faltava um último verso, e por isso ele subia, o últmo verso estava lá em cima. A folha estava dobrada dentro do sobretudo. Agora faltava pouco, mais um ou outro degrau, já tinha passado mais de uma hora na imaginação do poeta, apenas cinco minutos na imaginação de um trabalhador que subira pouco antes dele, e já havia chegado ao topo. O poeta tinha subido o último degrau, pegou a folha que estava no bolso, amassou e jogou fora. Era apenas uma avenida, cinza, nada além disso. Acabou o mistério. O poeta já estava se deitando enquanto recordava da escadaria, que ontem era mágica e hoje era apenas mais um pedaço sujo da cidade.

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